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Crônica

O pé-de-feijão

Publicação em 13/02/2026.

Outro dia, a Clara chegou da catequese trazendo nas mãos um copinho de plástico, desses de 50 ml, frágeis como promessa de eleição, um chumaço de algodão encharcado e dois feijões envolvidos. Trouxe aquilo como quem trazia os feijões mágicos de outra história.

Fiquei olhando a cena e pensei: para que as catequistas (assim como as professoras do fundamental) insistem nesse ritual do feijão no algodão? Para ensinar sobre a fé? Ou sobre frustração? Porque o feijão brota rapidamente, entusiasma as crianças, cresce uns 10 centímetros e, uma semana e meia depois, seca e se despede da vida.

Resolvi melhorar a experiência e eliminar a frustração. Convenci a Clara, com minha larga experiência de mais de 2 anos como agricultor urbano de um vaso de cebolinhas e algumas hortelãs, a abandonar o algodão e plantar o feijão na terra de verdade.

Afofei o solo com meu canivete, como quem prepara o berço de uma criança. Misturei um pouco de adubo, fiz uma pequena cova, depositamos ali o feijão e cobrimos com cuidado, como se estivéssemos escondendo um tesouro.

Expliquei as vantagens: raiz firme, caule forte, folhas largas, vida longa.
Ela estava toda feliz porque o feijão dela iria crescer, ficar bem bonito. Disse que tiraria fotos. Que mostraria para as catequistas. Que talvez o dela fosse o mais bonito da turma.

Então, cometi meu erro pedagógico.

Expliquei que de um feijão nasceriam vagens. E, dentro das vagens, muitos outros feijões. Uma multiplicação de feijões.

— Oba! — ela comemorou.

Empolgado com minha didática, continuei:

— Depois, nós pegamos todos os feijões que você colher, e eu cozinho para nós comermos.

— Comer o meu feijão não, pai.

Veio a resposta rápida, com a testa franzida e o coração acelerado em defesa do seu novo patrimônio. Os olhos quase lacrimejaram.

Consegui ser mais eficiente que as catequistas. Frustrei a menina no primeiro dia. Nem precisei esperar a morte natural da planta.

Nesse momento, a Eliane, que assistia à cena com aquela serenidade de quem já viveu guerras mais complexas do que essa crise diplomática entre pai e filha, entrou na conversa:

— Em que terra vocês plantaram esse feijão?

— No cantinho do vaso de hortelã — respondi, com orgulho.

Ela fechou os olhos por um segundo.

— Só me faltava essa…

E ali estavam as duas, me olhando e questionando minhas decisões agrárias.

Só que apenas um deles decidiu viver. E decidiu viver demais. Cresceu demais. Tomou espaço. Dominou o vaso de hortelã, sem pensar em pedir licença. Um ramo comprido escapou para o alto, ficou pendurado no ar como quem pensa na vida, depois se agarrou à cortina e, em determinado momento, subiu em direção ao teto.

O problema de cozinhar o feijão ficou para trás. Pois até onde iria a determinação de um feijão que já sabia que não podia ser cozinhado e comido?

Assim, na dúvida se esperava ou não os oitenta dias para colher os novos grãos, o tempo foi passando. Um dia, para meu alívio, as folhas e vagens começaram a secar, indicando o momento da colheita, assim como da limpeza da cortina. . E também, aumentando a vigilância da Clara.

Meu aprendizado acabou sendo outro: nem tudo que a gente planta é para colher.

Algumas coisas são para aprender; outras, para subir pela cortina e nos olhar de cima.

A safra foi guardada pela Clara. Nem um caroço foi comido.

(Belo Horizonte, 07 de outubro de 2024.)


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