Seleção do dia
Aprendemos a voar
Publicação em 27/02/2026.
(Aos amigos que provocaram
essa filosofia improvisada sobre a vida)
Quando eu era criança, a maior pressão da vida tinha som. Um zumbido insistente saindo da TV, misturado a um cheiro morno de plástico quando aquecido. Chamava-se River Raid.
A televisão ficava ligada por mais tempo, não diferente das telas de hoje. A diferença é que, naquela época, a culpa era do videogame. O cartucho era assoprado com uma fé quase religiosa, como se um sopro humano pudesse convencer o jogo a funcionar melhor.
O avião surgia pequeno e frágil, e o rio vinha estreito demais, rápido demais, exigente demais para nossas mãos ainda sujas de terra ou merenda.
O combustível era sempre pouco. Acabava antes do previsto. O dedo suava no botão. O coração aprendia ali o significado da palavra urgência. Errar um milímetro era explodir. Explodir era perder tudo. Drama absoluto.
Naquele tempo, isso parecia o fim do mundo. Era quase como voltar da escola num dia chuvoso depois de passar a noite fazendo uma pipa perfeita (ou quase, nunca voava como imaginava) E, em Esteves, chovia muito, o bastante para atrapalhar planos infantis.
A pressão da infância tinha contornos, sons e algumas cores. Era possível apontar para ela com o dedo. Piscava na tela ameaçando acabar com tudo se não fôssemos bons. Os inimigos eram visíveis, pontes estreitas, rios traiçoeiros e uma certeza: o erro não passava da próxima tentativa, a vida dependia do controle do joystick.
Quando perdíamos, bastava apertar um botão. O mundo recomeçava inteiro.
A infância tinha esse privilégio: a queda não deixava cicatriz. A falha não gerava extrato bancário, nem insônias. Era só um jogo, embora, naquele instante, isso fosse tudo.
Com o tempo, o River Raid foi ficando para trás. Sem cerimônia. Não houve despedida, nem última fase vencida. Um dia, o cartucho simplesmente deixou de existir. O avião pousou para sempre em alguma gaveta esquecida, coberta de pó, poeira e na poesia do silêncio.
Em seu lugar, entraram outras telas.
Veio o relógio, que passou a ditar regras sem nunca oferecer instruções claras. Diferente do jogo, não nos mostra quantas vidas restam. Não avisa quando o combustível está acabando. Apenas segue, marcando horas que nunca voltam, mas que nos fazem avançar.
Vieram os boletos, empilhados como fases que não escolhemos jogar, mas aprendemos a vencer. Depois os smartphones com aplicativos de agendamentos, mensagens e alertas. Vieram os e-mails que chegam mesmo quando não estamos prontos. A vida adulta não sabe que domingo era dia de desenho animado.
São tantas as decisões que às vezes sentimos falta do botão de “voltar”. Principalmente nos dias em que errar custa mais do que pontos: custa confiança, custa tempo e energia. Se, na infância, o medo era perder o jogo, na vida adulta é não saber o que está em jogo e, mesmo assim, seguir.
Não existe mais um “continue?” piscando na tela.
Ninguém avisa quantas tentativas temos. Ninguém garante que dá para recomeçar do zero. Ainda assim, prosseguimos, mesmo sem entender todas as regras, mesmo quando o combustível parece perto do fim.
Talvez tenhamos aprendido alguma coisa lá atrás, naquele rio estreito. Aprendemos que manter o avião no ar exige atenção constante. Que não dá para relaxar por muito tempo. Que é preciso pousar de vez em quando, reabastecer, respirar.
Hoje, a vida continua sendo um jogo, só que maior. Vibramos a cada vitória. Comemoramos cada reabastecimento, cada desvio bem feito, cada travessia concluída.
É um pouco da infância que insiste em sobreviver. Uma espécie de memória muscular da esperança. Uma lembrança de que errar não é o fim. A nostalgia que nos oferece momentos felizes e nos mostra que há beleza no esforço.
Se não há o botão de reinício, há ao menos a possibilidade de pausa. Um café tomado devagar. Um texto escrito sem pressa. Um instante em que o mundo desacelera e nos permite lembrar que nem toda pressão precisa ser enfrentada com heroísmo. Algumas pedem apenas delicadeza.
Talvez crescer tenha sido aprender a pilotar sem manual, nem mapa, e vencer.
O rio segue estreito, o avião pequeno. Sem explosão. A trilha sonora dos nossos embalos é mais saborosa. E o gesto antigo de não pousar antes da hora. Mas se há quem nos espere do outro lado, o amor à mesa e a família sustentam o voo.
É uma grande vitória.
(Belo Horizonte, 5 de fevereiro de 2026.)

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