Seleção do dia
Devagar e sempre
Publicação em 13/03/2026.
Resolvi que vou me inscrever de novo na Volta Internacional da Pampulha no final deste ano. Faz 19 anos corri pela primeira vez. Dezenove nem é um número redondo que justifique comemorar. Tenho outros motivos em mente. Deu vontade. Vou entrar no site e me inscrever daqui a pouquinho, quando terminar de escrever.
A Volta Internacional da Pampulha acontece como um pequeno ritual da cidade. Corredores de todos os ritmos contornam a Lagoa da Pampulha, onde o espelho d’água devolve o reflexo do esforço e da alegria coletiva. A cidade parece correr junto, passando pela silhueta da Igreja de São Francisco de Assis, por todas as árvores e pelo vento leve da lagoa. Mais que uma corrida, é um encontro entre a paisagem, o corpo e o coração de Belo Horizonte.
Em 2007, me inscrevi e quase perdi a experiência. Foi um ano apertado. Eu tinha prazo curto para entregar a correção da minha monografia de pós-graduação logo depois daquele fim de semana, e a dúvida se eu podia dedicar um domingo a essa aventura dominou meus pensamentos por vários dias. No fim, eu fui.
Existem dois tipos de Volta da Pampulha: a dos novatos e a dos veteranos. Eles não contam isso na inscrição, e não há qualquer distinção entre os participantes. Naquela época ainda eram uns 10 mil corredores, menos da metade de hoje em dia.
Preparei-me aos poucos, fazia treinos leves. Mas nunca havia completado um percurso de 18,6 km. A audácia era fazer isso justamente no dia da prova.
De olho no frequencímetro, tentando manter os batimentos entre 110 e 140, para não fazer nenhuma bravura desnecessária.
Embolados na linha de largada, o novato ouve a sirene e acha que já pode começar a correr. Mas ninguém se move. Foram infinitos oito minutos até que eu conseguisse passar pelo tapete da largada, tamanho o número de participantes. Com a largada, a organização da prova eleva o som às alturas. Parado, sem conseguir sair, ao som da introdução de Uma Partida de Futebol, do Skank, admirando o reflexo do brilho das águas, quase desisti pela segunda vez da prova ao perceber o frequencímetro em mais de 160 batimentos, só pelo calor e pela emoção do momento. Mas fui em frente.
A corrida é um passeio pela avenida inteira, entregue aos atletas. Muitas pessoas ficam nas calçadas assistindo os corredores passarem. Havia um ponto, já mais afastado do centro do evento, em que quase não havia público. Numa casa com varanda de frente para a avenida, uma banda de garotos tocava rock para os corredores que passavam.
Nós, amadores, corremos um tanto, andamos rápido por dois ou quatro minutos e depois voltamos a correr outro tanto. Assim completamos o circuito.
A corrida, o esporte, me descolam da realidade, afastando as preocupações momentaneamente. Exceto quando as preocupações nos perseguem. Eu estava numa curva próxima ao Zoológico de Belo Horizonte, já um pouco além da metade da prova, e resolvi fazer meu ponto de caminhada. Olhei para um grupo de pessoas conversando na calçada. Estavam com cadeiras de praia, isopor ao lado, curtindo o domingo. Então percebi um rosto conhecido: justamente o meu orientador, sentado e batendo papo. Adiei minha caminhada e voltei a correr para sair dali o mais rápido possível, antes que ele me visse.
Cansei mais do que o devido nessa esticada, até que em algum trecho entre o Pampulha Iate Clube e o Museu de Arte da Pampulha precisei parar e andar um pouco mais devagar para me recuperar. Ali eu já tinha me convencido de que minha vitória seria chegar ao museu e finalizar a aventura.
Veio um corredor bem mais velho que eu e caminhou ao meu lado:
— É sua primeira vez? — ele perguntou.
— Sim.
— Não desiste não. Pratico corrida há mais de 40 anos. Comecei tarde, como você. Mas meu neto tem 17 anos e já terminou a corrida. Quantos anos você tem?
— 34 anos.
Respirei um pouco e completei:
— Obrigado! Não vou desistir, não. — respondi enquanto equilibrava respiração e retomava o fôlego.
— Vou completar 70 anos e, se Deus quiser, ainda corro mais uns dez. Devagar e sempre!
— Parabéns! — respondi bem monossilábico.
Então ele deu o golpe final:
— O papo está bom, mas não posso te esperar, senão meus batimentos caem demais.
E saiu correndo, de forma que em poucos segundos o perdi de vista.
Foi o momento da minha decisão de manter a meta. Eu precisava terminar a prova. Então a fé de que conseguiria me deu forças, e terminei a corrida em 2h29min.
A meta de hoje é mais simples. Preciso me preparar para, daqui a uns vinte anos, estar correndo, parar ao lado de alguém trinta anos mais novo e depois deixá-lo para trás com muita folga.
Não para humilhá-lo.
Mas para ajudá-lo a terminar.
Embora, no fundo, também seja uma pequena vingança.
(Belo Horizonte, 12 de março de 2026.)

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