Texto do dia

Crônica

Onde a gota cai

Publicação em 10/04/2026.

Ao deitar na cama, não era o silêncio que incomodava. Era o som.

Pinga.

Pinga.

Pinga.

A torneira do banheiro insistia em não dormir. Cada gota parecia maior do que realmente era. No escuro, o barulho crescia, ocupava o quarto, ocupava a minha cabeça. Não era só água. Era irritação, desperdício, uma desordem miúda que se recusava a parar.

A solução parece simples, mas o corpo reluta. Os músculos já entraram em modo de encerramento do dia. Viro-me para o lado, como se as gotas pudessem, por cansaço, desistir sozinhas.

Não desistem. Nunca desistiram.

Ainda assim, a esperança fica, pequena, se esvaziando a cada gota, como se a água levasse embora um pouco da minha própria energia.

Levanto. Vou até lá. Fico olhando aquele fio invisível entre a torneira e a pia, tentando entender como algo tão frágil consegue incomodar tanto.

Fecho o problema. Volto para a cama.

E então acontece o contrário: o silêncio não chega. O ouvido fica em alerta, tentando confirmar a ausência do som. E, nesse esforço, outros ruídos nascem, uma janela que se fecha, o som de uma moto passando, uma vida acontecendo fora de mim.

Que poder tem uma única gota!

Poucos dias depois, resolvi tirar algum proveito daquela batalha.

Temos em casa uma kokedama. Regar uma planta redonda não é tarefa para quem gosta de certezas. A água nunca sabe por onde começar. Escorre antes de ser absorvida, hesita nas bordas inexistentes, cai pelos lados como quem desiste cedo demais.

Não há prato que segure. Não há canto que acolha. Tudo é curva. Tudo é fuga.

Exige paciência. Não aceita pressa.  Pede pausa. Observação.

É preciso entender o tempo da água, entrando devagar, quase em segredo. Ou então encher uma bacia, segurar a planta com as duas mãos e mergulhá-la inteira, aceitando que cuidar, às vezes, é parar tudo e se dedicar por completo.

Mas, dessa vez, achei que tinha encontrado uma solução melhor.

Deixaria a kokedama no tanque, com a torneira regulada em um gotejar delicado, constante, suficiente. Um acordo silencioso entre água e tempo.

Voltei em 30 minutos. A planta estava seca.

A goteira tinha parado.

Claro, não estava regulada como eu imaginava.

Abri novamente. Esqueci da planta.

Mais de uma hora depois, voltei: a goteira havia parado outra vez. A planta, quase intacta na sua sede.

Tentei uma terceira vez.

Dessa vez, fiquei. Sentei e observei.

A torneira, firme, parecia me encarar como quem espera vencer pelo cansaço. E, pouco a pouco, foi espaçando o tempo entre uma gota e outra, até parar de vez.

Minha esposa chegou:

— O que você está olhando?

— Você não vai acreditar… mas aqui a goteira para sozinha.

Ela não respondeu. Talvez porque certas coisas, quando ditas em voz alta, perdem a vontade de fazer sentido.

Mas a ideia ficou.

Quantas coisas na vida são assim? Só incomodam porque caem no lugar errado.

Palavra atravessada. Pensamento insistente. Tempo mal vivido. Sentimento sem destino. Tudo gotejando dentro da gente, fazendo barulho onde não deveria.

Talvez a gente insista demais em apertar a torneira, quando poderia apenas mudar o caminho da água.Colocar uma flor no percurso.

Porque tem coisa que não para, mas pode florescer.

Talvez o problema nunca tenha sido o gotejar, mas o lugar onde a gente deixa cair.

E, pensando bem… talvez aquela torneira nunca tenha parado sozinha e só tenha esperado eu sair de perto para voltar a ser ela mesma: teimosa, insistente  e absolutamente sincera.

Agora, sobre a kokedama… ela segue firme.

Percebi uma coisa importante: não dá pra terceirizar cuidado pra uma torneira teimosa. Principalmente uma que claramente tem mais personalidade do que eu.

(Crônica sobre o cotidiano, Belo Horizonte, 8 de abril de 2026.)

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