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Terça-feira, 09 de agosto de 2022       /popoeirapoesia

Degustação

Pipoca na panela

Valença é uma pequena e doce cidade do interior do Rio de Janeiro. Uma cidade religiosa em que muitas pessoas organizam seu domingo após o horário da missa, e conforme os horários do ônibus. O vô José era assim.

Eu morava em um bairro um pouco afastado do centro, Esteves, não muito, apenas 6 quilômetros, mas distante o suficiente para organizarmos nossos horários e compromissos pelos horários dos ônibus, que não eram muitos.

Era tão normal essa dependência do horário do ônibus que, ainda hoje, eu acredito saber os horários dos ônibus que iam até o bairro São Francisco passando por Esteves: 05:40, 06:50, 08:50, 11:25,12:40, 14:10, 17:40 e 22:30h. Fora desses horários, havia uma opção que ia para Barra do Piraí, mas com saída da rodoviária mais longe do centro. Nada muito longe, em torno de 1 quilômetro de distância da outra rodoviária. Os horários para Barra do Piraí eram a partir das 5:00h da manhã, de hora em hora, até às 21:00h e depois o último às 22:15h.

O vô José organizava seu domingo após a missa e gostava de ir cedo. Então para ir à Catedral em Valença, meu avô preferia a missa de 07:30h, que terminava próximo ao horário do ônibus de 08:50h, e muitas vezes eu fui acompanhando meu avô.

O ano era 1984, porque eu me lembro que estava na quinta série, e já estava acostumado a ir sozinho ao centro da cidade. Eu disse para minha avó que ia mostrar que sabia o caminho para o vô e iria indicar onde ele passasse. Ele achava graça disso: da rodoviária à catedral a distância é de 400 metros apenas. O que eu queria era passar pela Rua dos Mineiros e não Visconde de Ipiabas onde ele sempre passava. E passou. Naquele dia, eu acompanhava o vô José.

Vô José era um homem metódico. Para ir à missa no domingo, escolhia sua roupa no sábado, engraxava seus sapatos, separava o dinheiro do ônibus e deixava tudo pronto na véspera.

Vô José era um homem calmo. Calmo até demais. Queria ter herdado um décimo da paciência que ele tinha para planejar, executar e esperar. Tinha sempre um semblante sereno. Era realmente uma pessoa que poderíamos hoje usar a denominação popular “da paz”.

Vô José era mais quieto, de poucas palavras, mas sempre muito carinhoso com as crianças. Gostava de fazer nossas vontades. Às vezes sugeria algumas brincadeiras para nós ou até outras formas de fazer pipas, quando achava que as nossas não eram boas. Mas as dele eram muito difíceis. Imagine o trabalho que foi fazer pipa e ter que, antes, fazer a cola com farinha de trigo!

Vô José era um pouco exagerado nas suas execuções. Só um pouco. A característica dos exageros eu herdei, só um pouco, não posso reclamar.

Juntando as características de metódico, calmo e exagerado, algumas lembranças tornaram engraçadas com o tempo.

Certa vez minha avó pediu para cortar um palmito no fundo do quintal lá de casa. O almoço de domingo seria galinha com palmito. Estávamos com visitas em casa, meus tios Beto e Helena e meus primos Daniel e Fernanda estavam passando uns dias em Valença.

A maioria desses palmitos foi plantada, há alguns anos, pela minha avó. Eu a segui enquanto ela ia espalhando as mudas que brotaram dos coquinhos dos palmitos que ela deixou na terra adubada, preparada para isso. Eu sempre contei para todos que eu também havia plantado os palmitos.

Então a vó Tiana já tinha escolhido o palmito, perto da parreira de uva e estávamos todos por lá esperando. Eu repetia aos presentes que plantei várias daquelas palmeiras. Minha avó já havia levado e deixado ao pé do palmito.

Meu avô saiu de casa e sentou-se na varanda. Carregava o par de botas Sete Léguas e algumas outras coisas.

Ele sentou-se, calmamente, vestiu um par de meias finas que primeiro esticou, depois enrolou da borda para baixo. Arregaçou a barra da calça, colocou a meia no primeiro pé e desenrolou esticando bem. Depois colocou a barra da calça esticada para baixo novamente, dobrando a sobra na parte de fora da perna, enrolando bem rente ao seu tornozelo e passando um barbante segurando a calça para ela não desenrolar. Um laço firme, com os dois lados do barbante de mesmo tamanho. Não era um barbante qualquer, era um barbante grosso, específico para esta finalidade, que ele guardava sempre junto as suas botas. Então colocou uma segunda meia, bem grossa, que que ia até quase o seu joelho. Calçou o bota e puxou a parte de cima da meia passando ao redor da borda da bota, prendendo em volta de toda a circunferência da bota. Por fim, bateu firme o pé no chão. Então iniciou o processo com o outro pé. Meia fina, dobra da calça, barbante, meia grossa e borda da bota.

Calçou suas luvas de couro, colocou seu chapéu e foi até o pé de palmito, que a esta altura já estava derrubado no chão pela minha avó e pela minha tia, que não agüentaram esperar tanto tempo.

Vô José só balançava a cabeça com tamanha imprudência. Onde já se viu usar machado sem luvas e sem botas? Minha avó e minha tia estavam de chinelos. E as crianças todas em volta...

Voltando ao domingo em que o acompanhei à missa, saímos da Catedral e descemos pela Domingos Mariano, rumo à rodoviária para tomar o ônibus de 08:50h. Ao passarmos na esquina com Padre Luna, eu pedi:

- Vô, compra uma pipoca?

Ele respondeu:

- Vai lá e pergunta o preço da pipoca.

Perguntei e voltei. Não me lembro o preço que era. Mas entendi que o vô já sabia e só queria que eu também soubesse naquele momento. Ele riu e me disse:

- Vem comigo.

E começou a andar de forma calma e sorridente. Passou pelo pipoqueiro e seguiu, mas não falou nada. Desta vez passou pela Rua dos Mineiros mas ao invés de ir para a rodoviária, seguiu para o outro lado da Nilo Peçanha. Eu não sabia onde ele ia. 

Assim, ele caminhou rumo à outra rodoviária. Pensei: vamos tomar o ônibus das 09:00h e vou ficar sem pipoca. Mas o vô  ia feliz em seu planejamento.

Antes de chegar na outra rodoviária ele entrou na feira. Rodamos ali bastante até que paramos em uma banca e ele fez seu pedido:

- Um quilo de milho alho, por favor.

Milho alho é o nome que meu avô e minha avó chamavam o milho de pipoca. Não vejo outras pessoas que chamem o produto de milho alho, mas na Internet é possível confirmar a nomenclatura.

E era um quilo pesado, comprado à granel, não um pacote pronto que encontramos no mercado. Claro que para fazer o pedido, o vô José parou, olhou, analisou o milho e deu sua aprovação.

E com isso não tomamos o ônibus das 09:00h, fomos no horário das 10:00h, o que aumentou um pouco minha ansiedade porque agora sim, eu teria a pipoca.

Chegamos em casa e vô José foi fazer a pipoca. Mas era o vô José. Significa que ele foi trocar de roupa calmamente, dobrar sua calça de sair e arrumar no cabide, colocar a camisa para lavar, limpar os sapatos e colocar para tomar ar antes de guardar, lavar demoradamente as mãos e o rosto. Demoradamente. Tudo demoradamente.

Só então começou a escolher uma panela para fazer a pipoca.

Mas em pouco tempo o vô surgiu na porta da cozinha, com uma pequena bacia plástica cheia de pacotes de pipoca. Os pacotes eram feitos com papel de pão, enrolados em formato de cone. Pipoca gostosa, estourada com manteiga e bem salgadinhas. Manteiga caseira, feita pela minha avó com o leite que comprávamos diretamente da fazenda de Esteves.

Vô José distribuiu as pipocas para os três, eu e meus irmãos. Deixou os outros pacotes de pipoca na mesa, voltou à cozinha para buscar o saco de milho, praticamente cheio e disse:

- Comprei um quilo de milho com o valor daquela pipoca. Dá para fazer umas oito panelas de pipocas dessa e cada panela faço oito sacos de pipoca desses aqui. Vocês podem cansar de comer pipoca agora.

E deu uma gargalhada! Havia uma felicidade e satisfação no sorriso do vô muito grandes naquele dia. Ele estava radiante com seus ensinamentos. Fixei aquele momento para sempre!

Penso aqui, ainda bem que seus cálculos eram de oito panelas de pipoca e oito sacos por cada panela. Se as contas fechassem em sete, pode ser que não acreditassem na história.

Aprendi com o vô José que pipoca é para curtir em família, seja em casa ou não. Fazer pipoca para as crianças é um gesto de carinho.

Eu gosto tanto de pipoca de panela, feita em casa, quanto das pipocas dos pipoqueiros de rua e também das que são vendidas no cinema. Freqüentemente, o pipoqueiro conhece o meu nome e das crianças.

Hoje eu só fico imaginando o que o vô José acharia das pipocas de micro-ondas...



0001
Nome: José Luiz
Cidade: Rio de Janeiro
Comentário: Que lembrança bacana, que privilégio! Vamos de pipoca feita em casa...
Sábado, 04 de julho de 2020, às 22:38:21h. /popoeirapoesia/degustacao.php 201.17.91.82.

0002
Nome: Juliana Fontes
Cidade: Resende
Comentário: Que maravilhosa lembrança. Uma vivência para privilegiados.
Sábado, 04 de julho de 2020, às 22:39:55h. /popoeirapoesia/degustacao.php 179.222.249.179.

0003
Nome: Ricardo Fontes
Cidade: Rio de Janeiro
Comentário: Tenho poucas lembranças do vô José, mas essa calma e tranquilidade no trato da vida eu também guardei.
Vô José além de meu avô era meu padrinho de Batismo. Dia 31 de julho de 2020 completo 43 anos de batizado e nesse tempo guardei muitas lembranças dele. Agora guardarei mais essa!
Obrigado Cléber.
Sábado, 04 de julho de 2020, às 23:18:37h. /popoeirapoesia/degustacao.php 177.192.209.167.

0004
Nome: Deco
Cidade: Resende
Comentário: Não o conheci, mas li a história o vendo.
Bela lembrança!!!!
Sábado, 04 de julho de 2020, às 23:21:52h. /popoeirapoesia/degustacao.php 179.222.249.179.

0005
Nome: André Ribeiro Fontes
Cidade: Valença
Comentário: Fantástico esse texto!
Obrigado por compartilhar conosco! Fez perfeita descrição do Vô José!
Poucas palavras mas muito carinhoso com todos nós!
Detalhista e sempre correto em tudo!
Obrigado pela homenagem!
Sábado, 04 de julho de 2020, às 23:47:14h. /popoeirapoesia/degustacao.php 187.14.150.189.

0006
Nome: José
Cidade: Rio de Janeiro
Comentário: Sempre muito bom passar por aqui e lembrar desse tempo! Valeu Cléber!
Segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021, às 15:12:12h. /degustacao.php 168.227.158.46.

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49 visitas desde 04 de julho de 2020.


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